Os donos dos pequenos poderes pedem emprego

Tenho recebido vários currículos ultimamente. Acho que não só eu, mas todo mundo nas agências têm recebido.

As coisas mudaram muito e as vagas sem fim, os salários acima do normal, a condição de trabalhar com ideias preconcebidas em relação a nossas atividades e as festas nos fins de tarde reduziram muito ou acabaram.

A tal crise, aguçada e aumentada por nossos medos e despreparo profissional – infelizmente é isso, a maioria dos profissionais desse País são despreparados para atuar em seus respectivos mercados, é maior.

No Rio, esse despreparo chega ser vergonhoso, tem nos levado a um buraco bem maior do que ele realmente é e proporcionado uma invasão de gente bem mais qualificada de outros Estados.

Foto: Reprodução.

procuro emprego_tony coelho

Se, por um lado, isso é muito ruim, pois que coloca na rua gente que só sabe fazer eventos – péssima atribuição para se colocar num currículo – e promoções, e também gente muito boa que não vai encontrar recolocação tão facilmente, como há cinco anos atrás, por outro, é bom, pois vai exigir mais de quem quiser se apresentar ao mercado, inclusive, claro, de quem quiser entrar no mercado Live.

Não vai ter espaço para produtor enganador de currículo de volume e cheio de funções e coisas que não correspondem à realidade, o volume será o de experiências verdadeiras e comprováveis, polivalência de atuação e funções, engajamento na produtividade da agência, qualificação e disponibilidade para trabalhos (por falar nisso, o que é live marketing, hein? Sabe?) e com salário inferior ao que se imagina ganhar.

Ninguém vai contratar criativos e produtores que tiverem amigos e forem legais. Muita procura, pouca oferta… Lei de Maltus.

Qualificação vai ser fundamental, mas, uma coisa que muita gente, ao longo da história do nosso mercado, esqueceu de exercitar ou nunca se preocupou em melhorar, ou mesmo fez questão manter como postura, porque sabia que tinha espaço pra caramba ou mesmo não estava nem aí, vai pesar.

Falo de caráter, comportamento, respeito e consideração com quem se trabalhou.

Sempre combati essa gente. Os escrotos, os mau caráter, os dedos-duros, os puxa-sacos, os que humilhavam, gritavam e prejudicavam colegas, fornecedores e… agências.

Isso mesmo, estou falando, também, de pessoas que estavam clientes, e, hoje, estão no mercado, procurando emprego, mandando currículos.

Recebi, e você também pode ter recebido, um currículo de uma pessoa que já foi cliente, dos piores, e, agora, está na rua, como todos os mortais, como as pessoas que ele, possivelmente, com suas atitudes escrotas, ajudou a colocar na rua também.

Hora da volta? Não. Mas hora de reflexão para seguir em frente, melhor.

Quando vi o nome e me lembrei das maldades que o “poder” que a pessoa julgava ter a levou a fazer, tive vontade de dar um resposta grosseira e devolver as humilhações que proporcionou com base no seu cargo passageiro na forma de um “quero que você morra e engula tudo que fez para pessoas que só foram a você para trabalhar e foram enganadas e humilhadas por sua falta de caráter. O mundo dá voltas… etc, etc, etc.”

Mas, o que ganharia a não ser me igualar a ela? Sou conhecedor da regra de vida que diz que a gente recebe tudo que dá,. Portanto, tratei logo de mudar o pensamento e procurar um jeito de aproveitar o fato e tentar mudar coisas e pessoas.

Enumerei cinco coisas importantes a se pensar quando se tem algum tipo de poder, do menor ao maior, no nosso mercado, profissional do cliente ou profissional de agência. Espero, sinceramente, que vocês que me leem possam aproveitar para si mesmos ou para mandar para alguém essas francas colocações. Quem sabe a gente não melhora as coisas e/ou as pessoas.

1 – Perceba a diferença entre SER e ESTAR – A maioria de nós ESTÁ num cargo, função ou posição. Um dia num, outro dia noutro. Salvo se você for o dono do negócio. Aí você É. Num caso ou em outro, você depende das pessoas com quem trabalha, funcionários ou cliente. Não de você. Pessoas SÃO sempre pessoas, mas ESTÃO em posições transitórias. Sabia?

2 – O que você fizer de bom ou ruim às pessoas volta sobre você – Pessoas que aproveitam sua função ou cargo para fazer amigos e produzir boas ações e bom trabalho perenizam relação e ganham respeito e admiração. Num futuro vão estar em posição de dependência de alguma dessas pessoas. Se plantou boas coisas, colherá boas respostas pessoais e profissionais; se, ao contrário, plantou más vai receber indiferença e troco proporcional a suas ações.

3 – Procure ganhar respeito e admiração e não poder – Pior que o poder real são os pequenos poderes. Aqueles que a pessoa julga ter porque é gerente disso, supervisor daquilo, chefe daquilo outro ou analista, assessor e outros nomes bonitos.

Só a função Dono é estável (nem tanto, mas é), até o presidente muda ou é deposto. Valer-se da posição para se impor pelo medo, autoritarismo ou poder é efêmero e burro. Só damos nosso melhor para quem respeitamos e admiramos, porque pessoas especiais merecem cuidados especiais.

A gente adora elas e aceita e ouve de verdade o que nos pedem. De resto, o que damos são atitudes burocráticas e obrigatórias, nome na boca do sapo, más energias emanadas e desejos inconfessáveis de querer que a pessoa “sifu” ou “vtc” (tema até de musiquinha). E o pior é que, cedo ou tarde, essas energias e desejos as atingem.

4 – A realidade é que gente é que faz diferença – Valorize gente, qualifique gente, desenvolva gente e não tenha medo de perder seu lugar para gente. Prepare-se para crescer com elas e não se apegue a um lugar ou posição.

Lugares e posições passam, mudam de nome, desaparecem. Gente é sempre gente e são elas que nos colocam em outros lugares e posições melhores, que abrem nossos caminhos e nos indicam. E se é verdade que alguns escrotos crescem, é maior verdade que são os que caem mais rápido… derrubados por… gente.

Analise que valor você dá às pessoas e veja o valor que elas dão a você. Ou será que está todo mundo errado e só você está certo?

5 – Orgulhe-se do que é seu, do que você, de verdade, fez. Dê credito a quem tem e não roube nada – Tem gente incapaz de dizer para o superior que ideia que ela leva não é sua. Tem gente que rouba ideias e as trata como suas. São fantasmas de outras pessoas, sugadores de energia alheia, mentirosos de si mesmo. Crescem como balões de gás, mas como não são o gás, e ele acaba, descem lenta ou rapidamente.

Outras roubam ideias de agências e pessoas, fruto de trabalho árduo que envolve custos e ideias autorais. Há ainda as que roubam o dinheiro justo de quem trabalhou para lhe entregar um projeto e ainda orgulham-se disso para seus superiores, na base do “tirei X reais da agência, tá pensando o que? Aqui é assim. Portanto, são ladrões de valores e dignidade.

Ladrões são aprisionados na sua consciência, julgados por sua inconsistência e demitidos por sua incompetência. Sugadores, morrem pela estaca da ética, do mercado e da humana razão que diz: “a cada um segundo suas obras”. São pobres coitados que enganam a si mesmos.

Peguei o currículo da moça e respondi: Infelizmente, não temos nenhum vaga ou cargo que se encaixe no seu perfil. Uma verdade, mas que não fere.

Deixo a ela o desejo de que encontre um caminho, cinco dicas (tomara que leia, pois quem faz sabe o que fez) para que, quem sabe, leia e reflita sobre suas posturas e a esperança de que um dia a reencontre em outro lugar e ela SEJA alguém melhor e não ESTEJA ainda sonhando que tem algum poder de verdade.

Conhece alguém que precise dessas dicas?

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